“Trufinha”, assim a chamavam,
era a menina-floresta que todos amavam.
Tão bonita e tão natureza,
só não primava pela delicadeza.
Vivia a cogumelos que apanhava pelo caminho,
“Trufinha” - caía que nem um miminho!
Sempre atenta a troncos, húmus, clareiras,
de rabo no ar – sem pudor nem maneiras.
Acordou cedo, o dia convidava,
saltitava feliz, a floresta chamava!
Já de nariz a rastejar pelo chão
catava os venenosos, só por diversão!
Até que num gesto esquisito com a perna
Deparou-se com uma espécie, Amanita Verna…
Num só puxão, o veneno saltou,
não do cogumelo, mas do que desenterrou.
A seiva escorria
e vermes saltavam,
num rasto corcomido
já corvos berravam…
Trufinha ousou chegar bem mais perto,
na ponta do nariz, outro verme por certo!
Assustada ao descobrir o dedo-mistério,
gritou bem mais alto, fora do sério!
Começou a abrir a cova escondida,
a cada pá de terra, mais triste e perdida.
As lembranças da “Trufinha - órfã e descrente”
começaram a transformar em veneno a sua mente.
Já com a cova bem aberta
e o cadáver bem exposto,
Trufinha mutila-se...
é profundo o desgosto:
“Se é na terra que brotam os meus grandes amores,
Pra terra irei, sem pranto nem dores.”
(Do triste passado desenterrado, ainda se alimenta o mesmo corvo malvado)
quarta-feira, 29 de março de 2023
Desenterrado
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